Atras das Portas Enferrujadas (Parte II)
Chego a ser comparavel a um Sapo. Eu morfo e nao sou constante. Pouco sei eu de vaidade, e talvez isso seja devido ao fato que resido na lagoa; e para nos nao existem esgotos. O que eu faco me eh devolvido. Eu sou compensado com o que lavro e isso sem duvida me faz perceber que mudancas sao atingiveis e realizaveis. Quando me corto a pata eu perco o perito de nadar. Este Sapo, porem, nao se transforma num principe bonito e agradavel. Apareci de uma carcassa humana, e por um processo dolorido e pouco desagradavel aos espectadores eu mudei minha anatomia. Em certos momentos acarisciamos as Portas Enferrujadas para salvarmos dos nossos problemas.
Risos eu reconheco de longe. Eu continuo caminhando no meu rebulico com precaucao, olhando de lado e temendo as vozes que me eram direcionadas com uma tonalidade maligna. Tentando fugir de uma humilhacao por apenas estar num local virtualmente exposto. Por nao ser igual. Talvez eu tive a ideia em certo ponto da minha vida de querer ser igual, e nao ter falhido por falta de vontade mas pela obscura essencia de ser este avesso na minha sociedade; da inconstancia ao qual eu venho a viver, de perder amigos repetivamente e ter que me apresentar num novo ambiente talvez menos divino quanto ao outro que precedia. A minha inseguranca me era bastante clara e delicada, eu estava neste momento morfando de uma indiferenca para uma preocupacao: de sofrer uma disciminizacao de outros que poderiam nao gostar de como eu aparentava, talvez nao desfiguravam as minhas origens. Do indiferente me vem a reflexao importuna. Levanto os meus olhos adiante e vejo vividamente alguns jovens sussurrando ao meu respeito e gargalhando a minha existencia, agradeco a minha sensibilidade espontanea. Simulo nao ter visto e de repente me encontro com pensamentos irrisorios. Desvelo o meu rosto numa vitrine pouco depois, minha confidencia seguro com maos tremulas. Vejo os meus olhos negros e amarelos. Viro para as ruas frias e imundas e continuo a minha jornada ate em casa. Vontade de correr e ter que largar a minha vida futil e o meu mundo para tras mas os meus pes titubeantes nao permitem. Sinto a fraqueza me converter: ja nao tenho mais cintura. As minhas pernas com o meu torax estao juntamentes interligados por veias mais curtas que antes e ossos mais fragmentados. Sinto dor nas costas e tenho que me agaixar, trilhar selvagimente as ruas da cidade porque a minha forma nao ampara. Os musculos das minhas pernas se fortalecem entre as minhas coxas e sinto dor em andar. Paulatinamente as coisas mais proximas desenhavam-se com menos clareza. As lojas de perto, cujos conteudos eu maldissera com frequencia, ja nao me divisava; e se nao soubesse, sem que isso pudesse deixar lugar as duvidas, que passava em uma rua tranquila embora completamente urbanizada, poderia ter acreditado que a minha visao desvisava-se a um deserto no qual se fundiam indistintamente o ceu e a terra cinzentos por igual. Nao haviam mais discernos.
Estava eu perdendo a minha visao ou era isso efeito do meu daltonismo que de repente intensificou-se impetuosamente? Fiquei parado, arfante e nervoso. Meu coracao agitava proliferamente, nao havia controle nem maneiras para apaziguar o estado em que me encontrava. Fiquei por consequencia entalado, impossibilitado em absoluto de fazer por mim mesmo o menor movimento. Me encontrei a ponto de me asfixiar; e ate quando o frio era intenso permanecia ali um instante respirando com forca. Os que passavam ao meu redor se enojavam ou gritavam de pavor. Eu estava doente que queria apenas um auxilio para que eu pudesse ser escoado a algum hospital o mais rapido possivel. Assim transcorreram alguns instantes e eu ja me sentia exonerado. Tudo em redor silenciava, o que era talvez um bom sinal. Nao havia mais ninguem visivel nas ruas e estava solito novamente, ouvindo as batidas do meu coracao esbaforido. Ao alcancar para frente dei um salto, ao qual substituira os meus passos. Eu agia com pouco medo, por determinacao de humidar a minha pele que estava seca e requeria agua. Era a minha meta. Tive que me encontrar debaixo da lua cheia que brilhava intensivamente. Fiquei imovel, sucinto e inalterado. Apenas respirando. Pouco importava-me se ouvia o som da minha urna se apxorimando. Seria como apanhar um taxi, porem haveria uma afinidade diferente, nao voltaria a ser o que eu ja era.

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