Friday, November 11, 2005

Puteiro Carnavalensis

Se caso eu tinha lágrimas para escorrer

Sería por uma causa justa e formal.

Do que os olhos consideram anormal,

Que as palpebras apaguem, num amanhecer

Livre e espontanea vontade de modular,

Brincar com políticas eu irei um día.

E como eu irei, oh! Fontes vazías:

O rejuvenescimento dessa vontade popular

Mal consigo criar pombas de paz no meu mundo

Nao sou deus, para de trovoes criar estrondos

Que por um cisco de olho, consigo limpar o imundo.

Abri eu a porta do taxi para encontrar o mesmo taxista. Para variar havia acordado tarde e eu percebia que havía algo de errado, eu já tinha perdido as duas primeiras classes do cursinho. Com um sorriso agradavel, e olhos azuis e europeus, o taxista exlamou-me “Gütten Mörgen!”, eu gargalhei por seu sotaque Brasileiro, carregado de um espirito matutinamente latino, e retorqui a mesma frase para ele. Eu e a minha irma entramos no taxi logo na Avenida Paulista, e nos direcionamos á Liberdade, aonde estava localizado os nossos estudos. No taxi conduzi meus pensamentos as justificacoes do meu pusilanime. Minha irma nao me entendía, meus pais me tutelavam desde o inicio, mais quis vir para a terra-das-promessas*. Estava eu perdendo a magía de viver nesse pais? Sera que eu cometi um erro grandioso? Meu plano infalivel falhou-se e desmorronou no chao com tal ímpeto que ouvía-se os ruídos de quilometros a distancia? Uma coisa é certa, eu estudava o día inteiro sem parar, mais meu inconsciente me dizía que o meu caminho-brasileiro nao era para ser, que eu nao apartencia na terra que havía aclamada como minha querida: pois eu nao despertava! Meu mecanismo corporal intransigente nao aprumava-se na hora certa. Chegamos no cursinho. Eu estava com o pensamento agitado. E os pormenores da minha visao hao de seguir:

Desco do carro e vejo casais se abracando de tal fato que parecera um estupro. Eu mirabolava ao meu redor mais ninguém se preocupava: parecía ser a coisa mais normal que exsitía no ambiente. Será que ela foi contratada ou é ela uma oferecida? Ao perceber meus olhos arregalados vem-me um Paulistano por tras, e encostando a sua mao no meu ombro ele diz: “Deixe de olhar cara, é normal. Cada um com sua vida, é para aproveitar a juventude!”, olhei para tras para encontrar um pisco do garoto, jovém e coloquial, esse foi-se embora. Para me dizer que aproveitar a vida no meu país é se render a prostituicao na Europa ou em qualquer outro país que ja fui. Pensei nas leis “Al-Sharía” que torturou mulheres no norte e l’este da Nigéria, na informalidade na escrutinidade feminina na maioría dos países fundamentalistas. Parece que as ondas feministas de 1860 e a segunda onda em 1970 nao chegaram ao Brasil. Atropelo-me acima de um limpador de vidro do cursinho, e suplico pela sua desculpa. “Deus nunca condenou ninguem que ele considerava seu filho. Apenas o conduziu a liberdade total. Sempre manifestou sua sabedoría acima de nos, seus filhos, como forma de fogo por exemplo: Exodo capitulo 2. Nao se desculpes meu caro amigo, va com deus.” Imobilizado me direcionei ao altar da escola. Por incrivel que pareca, um homem que decorou a bíblia trabalhando num emprego semi-informal, ganhando um salario minimo, e havia perdido um filho por malnutricao no seu antepassado. Cultura economica no avesso? Comecou o cursinho. Botei minha cabeca na minha própria cidade: Araras. E como professores simpáticos podem conduzir um corpo estudantil ao lado errado das informacoes: “Cuspir chiclete no chao é proibido na Singapura! A Suica é quase 80% Industrializada! O HDI mede os valores economicos das sociedades!” dizia um professor [nao digo mais nada], que na realidade nao passara de invencoes espontaneas.

Sentei me na carteira do Anglo Tamandaré. Eu ví meninos com bonés americanos, meninas de mini saias tao curtas que dava para ver o que havía por baixo, gente se xingando de bicha, como se fora um insulto. Estudantes jogando pedacos de papeis um ao outro. Era um puteiro-carnavalensis. Era triste e me quebrei em prantos por ver o que acontecía, eu comecei chorar por ver a situacao em que eu estava. Chorei pelo Gütten Mörgen, chorei pela prostituicao, pelos pobres sábios, pelos insultos maldirecionados, pela Americanizacao do Brasil, chorei pelo jovem mal-direcionado pela Indigenacao cultural que devastava o Brasil. Chorei por desespero e nao me importava quem estiver ao meu lado. Alguns repararam, amigos vieram me abracar, outros nao entendiam minha decepcao. Que durante 19 anos me ludibriei com um Brasil que nao existia. Que por causa de uma namorada que me traía repetitivamente larguei minha vida para explorar a ilusao que havía criado de uma nacao. Que eu nao segui o conselho de Benedict Anderson, que nao quis decifrar as conseguencias de Bolivar ou Tiradentes, que creía nascer em mim uma cultura imaginária que havía criado durante toda a minha vida, e que se borrifava pelo chao nesse exato momento de sufoco e tristeza. Perdi meu ar e consegui me acalmar. Senti-me alíviado.

Entrei na minha faculdade de manha, comprimentando o porteiro com um sorriso cordial. Eu havía aula de Relacoes Internacionais nessa quinta-feira, passei pela catraca escorregando minha carteirinha aonde apropriado e me conduzi para a sala de aula. No caminho encontrei um casal, debatendo sobre a crise petrolífera dos anos 70 e como isso contribuiu para as mudancas em organizacoes internacionais assim como o FMI e o Banco Mundial. Ao continuar encontro um trabalhador que construía um novo elevador para a faculdade, ele recebía um salário mínimo, mais após as crises das Unioes de Trabalhadores nos anos 70 com o Governo Thatcher Conservador, o parliamento passou um sistema de juro que favorecía os pobres. No fim do mes os pobres e os ricos ganham quase a mesma quantidade no que se chama de “Welfare State”. [o que o Lula quer criar com a reforma provisória, mais talvez da maneira errada. Nao recebeu apoio da elite, os ricos, e as multinacionais]. O trabalhador sorría e tinha um filho na faculdade em que eu estudava. Continuei pelo corredor da faculdade até chegar a minha sala. Sentei do lado de um amigo do Caribe e ficamos conversando antes da aula comecar. No canto da sala eu vi uma menina. Parecía triste e solitária. “Aquela menina, ouvi falar que ela vem do seu pais!” disse o meu amigo, apontando para a parte da sala em que se encontrava Elisa. Pensei na vida em que ela tinha aqui, e como era melhor para ela aprender sobre feminismo, e sentir orgulho em ser uma mulher bem tratada na sociedade, do que viver de outra forma. Eu fui encontrar a Elisa no fim da aula, e ao me ver lancou me um sorriso consolidado. Era uma moca salva pela condicao em que várias ainda sofrem no meu pais, era uma moca livre. Nesse momento me veio pela cabeca o pensamento mais comum que já tive. Que um día, com ajuda de outros amigos e com a ajuda da Elisa, poderemos ter a forca de fazer do Brasil um melhor lugar para se viver, de mostrar para muitos como o meu pais seguiu, por muito tempo, um caminho totalmente errado e grotesco.

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