Relatos de Zalingei (O que acontece no Darfur)
Local: Vilarejo de Zalingei, Darfur
Dia: 13 Dezembro, 2004
Horário: 13:40
Ngumu estava passeando de volta para a sua casa. Ele vinha da recolta de frutas que se encontrava numa floresta não muito longe de Zalingei. O sol estava batendo forte sobre o cabelo crespo do jovem garoto de 9 anos, e de ter que andar com as frutas dentro de uma cesta acima da cabeça já era uma tortura para o estômago vazio do garoto. As moscas que zumbiam ao seu redor causavam os seus olhos a lacrimejarem: ele não podia afastá-las por medo de deixar tudo cair. Ngumu estava se aproximando do vilarejo, seus pés roidos pelas pedras agúdas que se encontravam no seu caminho, as sombras longinques pelas quais ele não podia se esquivar graciosamente: ele estava sózinho.
O menino passou pelo caminho ácima de um morro. Atrás dele a floresta, na frente dele Zalingei no deserto, e o sol. Ele continuou para o centro, o qual ele tinha que atravessar para chegar a sua casa e exclamar a sua mãe que ele tinha colhido a sobremesa dos jantares para a semana toda. Após passar pelo hospital de Zalingei, uma casa feita de caules de palmeiras e suas folhas, 5 por 4 mestros quadrado, ele parou para cumprimentar John Garang, um Doutor Sudanes que já havia lutado para a Armada da Liberação de Sudão. Ngumu cumprimentou Garang e continuou para a sua casa, equilibrando a cesta em sua cabeça. Ao chegar em casa ele deixou a cesta acima da mesa e foi dar um beijo em sua mãe, Zwinliki. Ela beijou o seu filho e agradeçeu pelo trabalho que ele havia feito. Ngumu pediu permissão para a sua mãe o deixar ir ver o Doutor Garang, para conversar sobre métodos de cozinhar no deserto. A mãe fez uma cara forçada de pensativa, mas acabou deixando o filho dela sair com a condição que ele tinha juízo. Ngumu saiu para o encontro com o Dr. Garang.
Ao sair de casa, Ngumu foi de barraca empalhada até outra barraca empalhada para encontrar com o Doutor. Ao chegar no hospital, Garang não se encontrava. Ngumu lançou os olhos ao seu redor, num movimento de 360 graus, para não encontrar o médico: Garang sumiu. Ao virar a cabeça em direção do morro ele encontra 3 cavaleiros esperando, três cavaleiros vestidos de turbantes laranja com objetos brilhantes em suas mãos. Ngumu não compreendia o que eram. Logo, por trás do menino, uma moça começou a gritar "Janjaweed!!!!..... Janjaweed!!!!", segundos depois a cidade inteira se pos em turbulência total. Todos os homens estavam fugindo loucamente, e se direcionavam na direção oposta ao que aparentava ser nômades para Ngumu. O jovem lançou os olhos para o seu lado e viu todas as crianças correndo com os homens, entre elas se encontravam seus melhores amigos. Ngumu moveu seus olhos para os estrangeiros que agora estavam galopeando em sua direção. Ngumu virou, deu as costas para os cavaleiros que estavam se aproximando, e começou a correr o mais rápido que podia. Ele seguiu os seus amigos, passo após passo. Em um instante ele acreditava ver os seus pés correr mais rápido que o acompanhamento do seu corpo. Seu abdômem não estava seguindo - Ngumu estava desesperado por ver a cidade inteira entrar em folia total por causa de três "cavaleiros". Do seu lado, Ngumu via mulheres esperando em suas casas: as mulheres não estavam correndo, porque?! Elas gritava "Janjaweed!", outras choravam, umas ajoelhavam como se fosse o fim do mundo, o fim da vida.
Ngumu correu em direção da sua casa para encontrar a sua mãe, desesperada perguntando para ele o que estava acontecendo. Ao sairem de casa, Zwinliki com seu filho viram as cabanas de Zalingei entrarem em chamas por causa desses perniciosos "Janjaweed". Ngumu olhou para a sua mãe e percebeu que a sua pele corada estava virando pálida e assustadora.
"Ngumu, saia daqui agora." Ela disse calma
"Vamos sair mãe, todo mundo está nessa comoção..." respondeu Ngumu
"Não!! Você corre... siga a floresta, eles são os cavaleiros do deserto Ngumu" Disse a mãe com uma tonalidade mais preocupada.
"Mãe, eu não vou te deixar!" Ngumu respondeu quando as primeiras lágrimas sentimentais corriam a sua face.
"Você tem chance e eu não Ngumu. Eu sou uma mulher e com os Janjaweeds mulher é podre!! Podre!" Respondeu a Zwinkili com uma voz demônica e sobrecarregada de desespero. "Corra!! Saia daqui agora" Gritava a mãe de Ngumu.
Ngumu chorando virou as costas e saiu correndo. Havia fumaça negra pelo vilarejo todo e ele tinha que colocar as mãos na frente do seu nariz e boca para não tossir. Ngumu finalmente saiu de Zalingei e estava correndo em direção da floresta quando percebeu que estava ao lado de corpos de seus amigos: crianças de 9 anos, mortos pelo Janjaweed. Ngumu procurava refúgio numa floresta que estava 250 metros na sua frente quando ouviu cavalos se aproximarem. Ao olhar para traz ele viu uma imagém muito anormal. Apesar dos 7 Janjaweeds que estavam o perseguindo ele viu mulheres sendo usadas pelos homens Janaweeds: mulheres de Zalingei. E ao sobrevoar a cidade que uma vez existiu, a sociedade que uma vez tinha a sua história, ele viu duas Águias negras sobrevoar os céus cinzentos devido as fumaças do fogo causado pelos Janjaweeds. A Águia era mortífera, ela virava a sua cara para cidadões de Zalingei e esses morriam instantâneamente. Ngumu aprendeu que essas Águias se chamam Helicópteros. Ao chegar na floresta Ngumu conseguiu fugir dos caçadores Janjaweed. O jovem menino, traumatizado, perdeu uma identidade, a sua família, e o seu vilarejo Zalingei.
Um ano depois.
Local: Genebra, Suiça
Dia: 10 Dezembro, 2005
Horário: 17:00
Ngumu se apresentou ao UNICEF para agradeçer o seu resgate ha pouco menos de um ano atraz. No dia em que ele apresentou um discurso sobre Darfur a Oganização Internacional das Crianças, ele encontrou com um agente da UNHCR, a Comissão dos Refugiados. Através de programas financiado por cidadões do mundo inteiro, Ngumu ficou sabendo que ele sobreviveu o Genocídio de Darfur. Que os cavaleiros Janjaweeds eram contratados pelo Governo Sudanês, eram militantes muçulmanos matando os Cristões e não religiosos de Darfur. Que o Genocidio é orchestrado principalmente por duas pessoas, o Hassan al-Turabi, e o Omar al-Bashir. Ele também ficou sabendo que Dr. John Garang venceu as eleições como Vice-Presidente, que ele era a única esperança para Darfur, para acabar com o Genocidio e instituir um acordo de paz definitivo no Sudão.
Julho, 2005: John Garang foi assassinado.

4 Comments:
Nossa!! Que história!
Sem palavras!!! =X
Beijão
Oi, professor de francês :)
Tu és meu amigo rs. Eu gosto dessa frase.
Eu sinto falta dos nossos encontros nos cafés de Harvard, foram uma das melhores coisas que encontrei lá: tua amizade, e o frapuccino.
Espero rever-te logo.
Adoro o seu blog. Vou linká-lo no meu.
Olá! Como você está? Escrevendo bem! Que projeto é esse?
Até!
É realmente uma historia chocante!Ainda bem q existem peossoas como vc para reforçar uma ideia q precisamos colocar em pratica.
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